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O racismo em debate na América de Donald “eu não sou racista” Trump

Jornais e revistas um pouco por todo o mundo ridicularizam Donald Trump e abandonam alegações e suposições: “O Presidente dos Estados Unidos é racista”, afirma o The New York Times.

O ano de 1973 estava a chegar ao fim e o cerco ia-se apertando à volta de Richard Nixon. No dia 17 de Novembro, numa jogada que mais tarde se confirmou ser de fuga para a frente, o então Presidente norte-americano deu uma conferência de imprensa para desmentir várias acusações de que era alvo e disse cinco palavras que se agarraram como lapas à cultura americana: “I am not a crook.”

Nessa comunicação, que foi transmitida através da televisão para milhões de norte-americanos, Nixon não se limitou a dizer aquelas palavras – pouco antes, em jeito de preparação, apontou para uma das câmaras e dirigiu-se ao coração de apoiantes e críticos: “Quero dizer isto à audiência da televisão. Cometi os meus erros. Mas em todos os anos em que estive na vida pública nunca lucrei – nunca lucrei – com o serviço público.”

A referência ao lucro era dirigida tanto à acusação de que o Presidente e a sua mulher não tinham pago todos os impostos que lhe eram exigidos como ao escândalo de Watergate, mas as cinco palavras tinham o objectivo de afastar as suspeitas em relação a qualquer área da sua vida: “Eu não sou um trapaceiro.”

O simples facto de um Presidente norte-americano ter de afirmar em público, em jeito de “juro por Deus”, que não é trapaceiro, já disse muita coisa aos espectadores da época, e aquelas célebres palavras não resistiram aos rápidos acontecimentos dos meses seguintes – entre 17 de Novembro de 1973 e a saída de Nixon da Casa Branca pelo próprio pé, para não ser destituído pelo Congresso, passaram apenas oito meses.

“I am not racist”
Este episódio é recuperado agora, 44 anos mais tarde, para servir de referência a quem analisa a frase que o actual Presidente norte-americano, Donald Trump, proferiu no domingo. “I am not racist” (“Eu não sou racista”), disse Trump a um grupo de jornalistas, acrescentando em seguida, de forma muito trumpiana: “Sou a pessoa menos racista que vocês já entrevistaram.”

Não é novidade para ninguém que Trump esteja a ser acusado de racismo, mas os acontecimentos da semana passada parecem ter derrubado os últimos entraves à forma como jornais e revistas em todo o mundo pintam o Presidente norte-americano nas suas páginas – não nas páginas de opinião, onde os colunistas escrevem mais ou menos o que lhes apetece, mas nas capas das revistas e nas primeiras páginas dos jornais.

Depois de várias fontes anónimas e o senador Dick Durbin, do Partido Democrata, terem dito que Trump chamou “shitholes” (merdosos) ao Haiti, a El Salvador e a países africanos durante uma reunião na Casa Branca, na semana passada, a revista New Yorker revelou a capa da edição da próxima semana: num buraco (hole), vê-se a cabeça de Trump, sugerindo que o nome do Presidente norte-americano pode ser substituído pela outra palavra, para além de holes, que forma o palavrão shitholes.

Na alemã Der Spiegel, no sábado passado, Trump surge como o último elo naquela ilustração científica que mostra a evolução humana em 25 milhões de anos. Mas, em vez da ideia de progressão, a marcha segundo a revista Der Spiegel transmite a ideia de regressão – do homem moderno até Donald Trump.

Menos surpreendente na dureza da crítica é a capa da revista The Economist, habituada a mostrar-se irreverente todas as semanas. Desta vez, Donald Trump é posto num carrinho de bebé, a comer um hambúrguer e a brincar com mísseis, com o título “um ano de idade” e uma pergunta: “A presidência Trump é mesmo assim tão má?”

Falar do racista ou do racismo?
Tal como em 1973, quando um Presidente norte-americano se sentiu obrigado a dizer que não era trapaceiro, também agora se levantou a questão: o que diz ao país, e ao mundo, o facto de um Presidente dos EUA se sentir obrigado a dizer que não é racista?

“Por onde começar?”, perguntou em editorial o The New York Times um dia depois da reunião na Casa Branca. “Que tal começarmos por uma observação simples: o Presidente dos Estados Unidos é racista. E por outra: os EUA têm um longo e feio historial de exclusão de imigrantes com base na raça ou na nacionalidade. Trump parece estar determinado a desfazer os esforços feitos por Presidentes de ambos os partidos em décadas recentes para reverter essa história.”

Mas a acusação de racismo – mesmo em relação a um Presidente norte-americano, e na semana em que se comemora o feriado nacional que recorda a luta e o assassínio de Martin Luther King Jr. – pode ser apenas a parte menos importante do problema, segundo a escritora e jornalista norte-americana nascida na Rússia Masha Gessen, crítica de Donald Trump e também do Presidente russo, Vladimir Putin.

“Muitas análises focaram-se na discussão sobre o que é que o facto de Trump ter usado aquela palavra diz sobre a essência do homem. As opiniões variam entre ‘Isto não é novo, sempre soubemos que ele é racista’ e ‘Finalmente, podemos dizer de forma definitiva que ele é racista’”, notou Gessen na revista New Yorker.

“Esta reacção reflecte uma preocupação muito americana com a forma como as qualidades inatas de uma pessoa são entendidas; a suposição é que é sempre importante saber quem uma pessoa é antes de fazer julgamentos sobre a forma como a pessoa age. Mas não é isso que está aqui em causa”, defende Gessen, argumentando que as palavras do Presidente norte-americano têm mais impacto no comportamento do povo americano do que na imagem que ele transmite.

“O racismo de Trump não é novidade, e muito dificilmente vamos aprender algo de novo sobre a mente e a alma de Trump, que parecem ser bastante simples. A notícia aqui é o comportamento público dele e a forma como isso está a mudar o país.” Segundo a jornalista, ao analisarem apenas o facto de o Presidente norte-americano ter feito um comentário racista, eleitores e jornalistas estão a ser confrontados com “uma versão mais forte do problema diário posto pelo Twitter trumpiano”: “Não noticiar os seus tweets ou o uso do palavrão ‘shithole’ é falhar na função de dar notícias. Noticiar ambas as coisas é participar na corrente degradação da esfera pública.”

Mais do que Trump, é o trumpismo que preocupa várias camadas da população americana – era isso que se sentia em várias igrejas um pouco por todo o país no domingo, segundo o The New York Times, que foi avaliar de que forma a população negra olha não só para a polémica da semana passada, como também para o primeiro ano da presidência Trump.

“Mesmo que Trump saísse amanhã, teríamos de lidar com a grande parte de evangélicos brancos que votaram nele. A minha batalha não é tanto contra Trump, mas mais contra o trumpismo”, disse o reverendo Raphael Warnock, de Atlanta.

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